Qual o valor de quem cuida?

Fabiana M. Machado mostra que a desigualdade e a desvalorização estão perto de nós

Nesta semana, foi divulgado o relatório da ONG Oxfam revelando que os 2.153 bilionários existentes no mundo acumulam mais riqueza do que 60% da população mundial — o equivalente a 4,6 bilhões de pessoas — e que 22 deles têm uma riqueza superior a de todas as mulheres da África. Esses dados alarmantes, rapidamente, viraram notícia pelos meios de comunicação, destacando que a desigualdade econômica está fora de controle e é hora de cuidar de quem cuida!

A Oxfam é uma organização que trabalha em mais de 90 países, promovendo um movimento global para eliminar a pobreza e as desigualdades.

O relatório chamado “Tempo de cuidar: o trabalho de cuidado não remunerado e mal pago e a crise global da desigualdade” aponta dados de países que estão na extrema pobreza e onde a maioria das mulheres – a partir de 15 anos – realizam trabalho de cuidado e doméstico não remunerado ou mal pago, sem proteção ou garantias, sofrendo até violência física e psicológica.

Como solução, são recomendadas medidas públicas para diminuir essa desigualdade,  questionando o papel dos bilionários (homens) e considerando que o trabalho realizado por quem cuida (mulheres) tem muito valor à sociedade, inclusive para o funcionamento da economia, embora não seja monetariamente pago.

Esse tema, que coloca a mulher em desvantagem no cenário econômico mundial pelo trabalho que realiza, me faz pensar qual é o valor de quem cuida?

Podemos achar que esses dados não nos dizem respeito, que basta ter uma mentalidade positiva, ter autoconfiança e buscar formas de gerar dinheiro, bater no peito e dizer eu posso, tenho os mesmos direitos e liberdade para fazer o que quiser e, assim, e não pertencer à pobreza. O objetivo é enriquecer. Será apenas esse o nosso papel?

Vamos trazer para a nossa realidade.

A mulher, historicamente, sempre foi a responsável por cuidar: da casa, do marido, dos filhos. Um trabalho não remunerado. Enquanto isso, o homem saía para trabalhar e trazer o dinheiro para o sustento da casa. O trabalho da mulher nem sempre era valorizado, pelo menos como gostaríamos, concorda?

Mesmo que você não tenha vivido esse momento, já deve ter ouvido algum conselho de mãe ou de avó dizendo “não dependa financeiramente do marido” e “trabalhe fora para ter valor”. Certamente, o problema não era o dinheiro, mas a falta de reconhecimento do valor do trabalho daquela que ficava em casa cuidando de tudo.

Seja por vontade ou necessidade, a mulher saiu de casa. Foi estudar, trabalhar fora. Gerar o próprio dinheiro e conquistar a liberdade. Contribuir com o mundo e ser reconhecida. Ou simplesmente para sustentar a família (quando o provedor não estava mais). Mas nunca disseram à mulher que ela não precisaria mais cuidar da casa ou dos filhos. Fechar a porta de casa e virar as costas sem se preocupar com nada? Impossível! Necessário, então, fazer alguns ajustes ou a jornada se tornaria dupla, até tripla.

Colocar ordem e limpar a casa, providenciar o alimento, educar os filhos, cuidar da saúde, realizar atividades extras… Todo esse trabalho de cuidado custa: tempo (dedicação) e/ou dinheiro (para quem pode pagar).

A mulher passou a investir em qualidade e não mais quantidade de tempo em que passa com a família para se dedicar ao trabalho. Isso também custa: a culpa por estar ausente, a tristeza de não ouvir as primeiras palavras do filho, a dor de não poder amamentar nem mesmo durante a licença maternidade. Sem contar situações até constrangedoras de ter que tirar o leite que está empedrando no seio em pleno expediente de trabalho. Ou receber aquela ligação da escola dizendo que o filho está com febre e deve ir buscá-lo, pois, sim, o “problema” de cuidar é seu.

É possível conciliar, dividir tarefas, trabalhar para pagar alguém que cuide por nós, contar com a compreensão da família (e ajuda também), mas sempre será preciso cuidar.

A mulher aceita ganhar menos para poder ter flexibilidade e disponibilidade para trabalhar e cuidar ao mesmo tempo, principalmente quando não tem mais o homem provedor que ajuda financeiramente na casa.

A solução seria não ter filhos??

Segundo dados do IBGE, em 2050, o Brasil terá cerca de 77 milhões de pessoas dependentes de cuidado (pouco mais de um terço da população estimada) entre idosos e crianças.

Ou seja, podemos não querer ter filhos, mas vamos envelhecer, viver mais e é bem provável que precisaremos de alguém para nos cuidar, seja em razão das nossas limitações físicas, da modernidade ou nos simples (mas trabalhosos) afazeres da casa e do cotidiano.

Você pode pensar em fazer um planejamento para ter dinheiro no futuro e envelhecer com saúde, pagando por um bom plano de saúde ou local para morar (de preferência sem depender de ninguém ou, quem sabe, passar o resto da vida viajando), mas tem alguma garantia de que não precisará de algum cuidado? Nenhum planejamento trará essa garantia.

O relatório da Oxfam pode não ter sido dirigido diretamente a nós, pois o objetivo é um olhar para uma transformação global, por aqueles que têm a condição de fazer as mudanças necessárias, seja por estarem no poder como governantes, seja por terem uma condição financeira capaz de contribuir para mudar essa triste realidade da desigualdade.

Entretanto, nos permite refletir não apenas sobre os números, mas sobre os fatos e como podemos contribuir enxergando valor em quem cuida.

A riqueza ainda se concentra nas mãos de homens, embora as mulheres, no seu papel de cuidar, tenham desempenhado papeis importantíssimos ao longo de anos nos lares, influenciando inclusive nos negócios da família, seja no dia a dia, nos almoços de domingo, nas simples conversas ou até soluções de conflitos, atuando como verdadeiras conselheiras e até CEO’s para manter a continuidade da família. Dificilmente, enxergamos esse valor.

A desigualdade, por outro lado, é claramente sofrida pelas mulheres. Mas, para reduzir essa desigualdade, será que precisamos nos igualar ou nos comparar aos homens ou nos sacrificar para mostrar o real valor, para justificar um salário igual, e, muitas vezes, até desvalorizar aqueles que cuidam de nós ou dos nossos entes? Que valor estamos dispostas a reconhecer em que cuida e como podemos mudar essa realidade?


*Texto publicado originalmente no site Bella Mais, em 23.01.2020.

Fabiana G. M. Machado

Sou sócia-fundadora da MoneyMind® e especialista em comportamento financeiro. Trabalho com programas individuais, treinamentos e palestras com foco em comportamento financeiro, ajudando as pessoas a organizar a vida financeira e lidar com o dinheiro com mais liberdade e consciência.

Sou colunista do Bella Mais, um site dedicado ao universo da mulher em diferentes segmentos, e escrevo semanalmente textos relacionados ao comportamento financeiro ao público feminino.

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