Organização Financeira: por que não dá certo?

Fabiana M. Machado mostra que o motivo não está na planilha

Quando pensamos em organizar a vida financeira, logo vem a ideia de que é preciso elaborar uma planilha ou baixar um aplicativo para registrar todos os ganhos e gastos e passar a controlá-los por ali. Quanto mais detalhe, melhor. E saber controlar “até os centavos” pode se tornar um mérito, sinal de total e absoluto controle.

Com o tempo, percebemos que esse “controle” se torna um transtorno, principalmente quando as contas não se pagam. Muito trabalho para atualizar a planilha e, ao final, não se tem o resultado desejado. Falta dinheiro para todas as despesas, não sobra para guardar, surgem os “imprevistos” que nos levam a gastar o que não temos e, para piorar, o mês não acaba logo. Controlar a planilha financeira passa a ser um atestado de incapacidade e total descontrole.

Mas não há como fugir e muito menos deixar pra lá, pois o mês seguinte começa e o problema é o mesmo: as contas reaparecem, o salário não é suficiente, não há saldo para os “imprevistos”, não investimos em nós mesmos, não fazemos o que gostaríamos. Com isso, a ansiedade e o estresse aumentam, o controle com a planilha não dura muito e dá até medo de olhar para a conta bancária. 

Até mesmo quem passa a ter o controle das finanças pessoais não entende o porquê de não conseguir juntar dinheiro ou usá-lo para fazer o que gosta, mesmo sabendo detalhadamente de onde vem e para onde vai o dinheiro.

O salário é sempre o mesmo. Já para quem é dona do próprio negócio, os rendimentos nem sempre são os mesmos (motivo de incerteza). Mas as contas são. E os imprevistos, vamos ser sinceras, não são tão imprevisíveis assim, pois carros quebram, ficamos doentes e precisamos de remédio, o chuveiro para de funcionar, um parente morre, o marido sai de casa, o Natal acontece todo fim de ano… enfim, provavelmente ocorrem fatos que não são desejáveis, mas acontecem a qualquer momento.

Queremos ser otimistas com o nosso dinheiro; às vezes, até fazer milagre, assumindo despesas acreditando que será possível pagar, mesmo sem saber quanto ganhamos ou gastamos no mês. 

Agora no fim de ano, é a prova: a ilusão do décimo-terceiro salário (para quem tem) e logo a enxurrada de propaganda que nos faz correr e comprar o que não precisa, inovar na decoração de Natal, presentear toda a família, viajar e conhecer lugares incríveis, comprar roupas novas, brancas e impecáveis, afinal, passar o réveillon com roupa do ano passado não trará boa sorte, não é mesmo? E o dinheiro extra que nem entrou já tem destino garantido.

Acredito em pensamento positivo, mas ele, por si só, não paga a conta. Financiar um carro ou um imóvel cuja prestação não cabe no orçamento e compromete as despesas do dia a dia, contar com um dinheiro que não recebeu (mesmo que tenha direito a receber), gastar sem saber se consegue pagar, são exemplos de comportamentos que não ajudam a manter uma vida financeira organizada.

Mesmo que se tenha um pensamento para gerar mais dinheiro, é preciso trabalho, esforço, dedicação, foco, disciplina e o mais importante: ter efetivamente dinheiro para pagar todas as vontades e desejos.

Então, precisamos ser realistas com o nosso dinheiro. Se a grama do vizinho parece mais verde, simplesmente não olhe pra ela. É apenas aparência. Comprar roupas caras para parecer bem-sucedida pode não se sustentar diante da sua conta bancária. Se um sonho não se concretizou, não se frustre, mas sim reveja os seus planos.

Ao final, sempre se questione: está difícil fazer o controle das finanças ou encarar a realidade?


*Texto publicado originalmente no site Bella Mais, em 05.12.19.

Fabiana G. M. Machado

Sou sócia-fundadora da MoneyMind® e especialista em comportamento financeiro. Trabalho com programas individuais, treinamentos e palestras com foco em comportamento financeiro, ajudando as pessoas a organizar a vida financeira e lidar com o dinheiro com mais liberdade e consciência.

Sou colunista do Bella Mais, um site dedicado ao universo da mulher em diferentes segmentos, e escrevo semanalmente textos relacionados ao comportamento financeiro ao público feminino.

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