O VERDADEIRO PREÇO NÃO ESTÁ NA ETIQUETA

Fabiana M. Machado

Comprar algo, principalmente se vem acompanhado da palavra p-r-o-m-o-ç-ã-o, é uma tentação. E é só dar um clique, passar o cartão, pagar, levar… seja como for, o quanto você está disposto a pagar por um produto ou serviço pode não estar na etiqueta.

Nesta coluna, convido você a refletir sobre o que levar em consideração na hora de realizar uma compra e adquirir consciência do rumo do seu dinheiro.

É sustentável?

A facilidade e a comodidade em ter acesso a produtos, muitas vezes, não nos fazem pensar de onde veio aquele produto, como foi produzido, quem produziu, com qual recurso, a que condições, se é durável, e o que foi aproveitado ou destruído para ser produzido.

Sustentabilidade não é novidade, nem tendência, mas talvez ainda não haja conscientização ou parece distante da realidade de muitos, como se envolvesse apenas quem produz. A sustentabilidade leva em consideração fatores sociais, ambientais e econômicos. Mas o que torna um produto sustentável para nós? 

Imagine o que faz sentido na hora da compra: é apenas uma peça que posso pagar ou me importo em saber o impacto para produzir essa peça até chegar às minhas mãos?

E se for de graça, melhor ainda? Será?

O dinheiro permite ter acesso, comprar coisas, mas também é um meio de nos relacionarmos com as pessoas. Como você está usando o dinheiro? Como está contribuindo para o mundo?

Dinheiro traz poder não apenas nas mãos dos “poucos que tem muito”. Ele faz parte da vida de todos nós e como escolhemos usá-lo é uma decisão individual, única e impacta positiva ou negativamente aqueles que estão na nossa volta. Comprar do pequeno produtor, do vendedor local, é um exemplo que faz com que o dinheiro circule na própria região, além de valorizar o trabalho do próximo e manter o sustento de todos. E temos esse poder de realização e transformação com o dinheiro.

Sustentabilidade pressupõe equilíbrio em todo o processo para a manutenção e permanência. Quando o preço é muito baixo, ou até de graça, pode ser muito bom para nós consumidores, mas alguém está pagando a conta do outro lado, com a baixa qualidade do produto, precárias condições e cuidados com o meio ambiente e até com a própria vida.

Longe ou perto de nós, a forma como escolhemos gastar ou investir o nosso dinheiro pode contribuir muito para manter o mundo mais sustentável.

Horas de vida

Alguns conceitos que adquirimos ao longo da vida são interessantes… passamos horas no trabalho e, como resultado, acreditamos que “ganhamos” dinheiro, como se fosse um prêmio. E na hora de gastar, dificilmente percebemos que “trocamos” horas de vida por coisas.

Já pensou quantas horas de vida são necessárias para gerar a quantia de dinheiro que precisa para viver por mês? Com essa consciência, você teria tantas dívidas, compraria alimentos para estragar na geladeira ou roupa para deixar no fundo do armário sem usar?

Um bom exemplo é o filme “O preço do amanhã”, onde o tempo é a moeda de troca pra tudo, inclusive a sua própria vida. O salário são em horas e os gastos também. Você gastaria 4 minutos da sua vida para tomar um café sabendo que esses minutos podem fazer falta para manter você vivo?

Eu, por amar café, certamente gastaria os 4 minutos, mas sabendo que seria preciso repor esse tempo se quisesse viver mais.

Nós aqui não estamos à beira de uma morte súbita em razão de minutos contados, mas ao trocar o dinheiro pelo o que equivale em tempo de vida, temos a condição de avaliar melhor o preço das nossas compras, considerar o peso das nossas escolhas e valores e entender o custo total dentro da nossa realidade.

Seguindo os cálculos do filme, estou disposta a trabalhar 1.460 minutos para pagar o meu café diário durante um ano, mas consciente de que estou abrindo mão de guardar o dinheiro equivalente ou gastar em outra coisa.

E você, já pensou quantas horas do seu trabalho, com a renda que você gera, custa o que você deseja comprar? E está disposto a gastar o seu tempo com ele?

Fator emocional

As decisões que envolvem dinheiro não são racionais. Por mais que façamos conta de quanto custa um objeto, uma viagem, um serviço, vários aspectos emocionais interferem nesse cálculo.

Quanto você pagaria para tomar um café numa cafeteria famosa, mesmo sabendo que não servem o melhor café? Ou comprar um tênis de marca e da moda, mesmo sabendo que não é o tênis mais adequado para você?

Qual o preço de pagar por um ingresso no parque de diversões, enfrentar uma fila enorme para ficar menos de 5 minutos num brinquedo, mas, ao final, ter a alegria de ver o rosto do seu filho sorrindo?

E o preço emocional de pagar por uma roupa, mesmo a sua consciência dizendo “não compra”? E se for no cartão de crédito, a consciência vai pesar quando chegar a fatura! Principalmente se estiver escondendo do cônjuge…  

Você pode até pagar o preço da etiqueta, mas avalie quanto realmente vai custar. Ao final, você sabe o preço que está pagando?

Fabiana M. Machado

Sócia-fundadora da MoneyMind® e especialista em comportamento financeiro. Colunista do Bella Mais, um site dedicado ao universo da mulher em diferentes segmentos, e escrevo semanalmente textos relacionados ao comportamento financeiro ao público feminino.

Quer saber mais? Acompanhe a coluna semanal. Todas as quintas tem texto novo para você refletir sobre a sua relação com dinheiro.

Quer organizar a vida financeira e construir uma relação mais consciente e saudável com o dinheiro?

Vamos conversar

*Este texto foi publicado no site Bella Mais, em 30/julho/2020.