O DINHEIRO E A VIDA

Fabiana M. Machado

Já era entardecer quando a conversa sobre dinheiro começou. Entre sorrisos, o assunto iniciou sobre como ter mais dinheiro ou investimentos para não ter que se preocupar com o dinheiro. A conversa estava agradável e foi surgindo uma lista de tudo o que o dinheiro poderia proporcionar. Em seguida, vieram as lembranças dos bons tempos de criança, da tia rica que adulava os sobrinhos com mimos e presentes e sempre fazia festa. De repente, já no escuro daquela noite, surgiu a saudade e fortes palavras cheias de emoção:

“Ela era rica, mas o dinheiro não serviu pra nada.”

A história dela com o dinheiro mostrava que havia muito mais do que a vontade de ter dinheiro e investimentos. Uma vontade, inclusive, que não correspondia à sua realidade, pois ela pouco fazia para ter dinheiro e investimentos. Ao contrário, no seu íntimo, ela preferia não ter dinheiro. Doía.

A tia alegre e querida de toda a família nunca teve filhos, mas sabia agradar bem os sobrinhos. Com uma satisfatória vida profissional que lhe rendia um bom salário, tinha uma vida financeira equilibrada e reservas que a deixavam longe de qualquer preocupação. Além disso, sabia usar o dinheiro para proporcionar prazeres e alegrias àqueles que lhe eram próximos, o que tornara a sua tia uma grande referência.

Mas, um dia, uma notícia triste acometeu a família: a tia querida estava doente. Era grave.  Mas a tia não se abateu. Ela tinha acesso a recursos para o tratamento. Tempos ruins, mas esperançosos. A sobrinha, ainda criança, trazia consigo uma certeza: a de que o dinheiro seria suficiente para ajudar a tia a fazer o tratamento de cura e tê-la de volta, saudável como sempre esteve.

Aquela criança não entendia o porquê, mas a tia morreu. O natural sentimento de tristeza pela partida e ausência durou anos. Mas a morte incompreendida escancarou toda a raiva sentida do dinheiro que, guardado durante uma vida sob o discurso de ser usado para o momento que mais precisasse, não foi capaz de salvar a própria vida de quem o guardou.

Mesmo tendo vivido bons momentos ao lado da tia querida, não foi o suficiente para evitar a decepção com o dinheiro e que ele se tornasse o vilão da história, odiado desde criança pela sobrinha que hoje, na sua fase adulta, só deseja uma coisa: que ele fique longe, bem longe. 

Afinal, qual o sentido de ter dinheiro guardado, ter investimentos, se não há garantia de salvar se for preciso? Não, não há garantias.

Por trás do dinheiro, uma história, e o que ele representa tem um papel diferente na vida de cada pessoa. Pudera aprender, com alegria e sabedoria, que o dinheiro pode ser usufruído e precisa ser poupado ao longo da vida. Mas o seu sentir ainda guarda a raiva e a tristeza de não ter mantido a vida. O dinheiro tem dessas coisas…

Fabiana M. Machado

Sócia-fundadora da MoneyMind® e especialista em comportamento financeiro. Colunista do Bella Mais, escrevo semanalmente textos relacionados ao comportamento financeiro ao público feminino.

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*Este texto foi publicado no site Bella Mais.