O custo da desorganização

Levar uma vida desorganizada pode não parecer um problema…mas a desordem pode custar muito mais do que você imagina

Levar uma vida desorganizada pode não parecer um problema… afinal, muitas pessoas são assim, ou melhor, o mundo é assim: cheio de objetos, cheio de informações, cheio de atividades… então, é aceitável dizer que a bagunça tomou conta, que não tenho tempo para organizar, não repara na bagunça, etc.

Assim como é comum investir em móveis bonitos, que acabam servindo para esconder a bagunça. Aos olhos de quem não vê, principalmente das visitas, parece não ter problema entulhar coisas em casa desde que esteja tudo escondido, não é mesmo?

Mas, mesmo longe das visitas, a bagunça está ali, todos os dias nos fazendo companhia e posso garantir: não é uma boa companhia!

Por mais que a gente não se importe, a desorganização dificulta a nossa vida:

  • Perdemos tempo procurando alguma coisa que não sabemos onde colocamos.
  • Perdemos dinheiro quando esquecemos de pagar uma conta em dia.
  • Perdemos dinheiro quando temos que comprar uma coisa que já temos em casa, mas não sabemos onde está.
  • Perdemos dinheiro comprando em promoções ou por impulso aquilo que não estamos precisando.
  • Perdemos tempo escolhendo roupas só porque temos um guarda-roupas entulhado de coisas que não combinam com nada.

Enfim, todas nós temos inúmeras situações que podemos elencar aqui.

Com o meu trabalho de organização financeira, tenho visto que as pessoas não estão apenas vivendo na bagunça, mas estão comprometendo as finanças pessoais, até mesmo se envolvendo em dívidas para comprar aquilo de que não precisa. Não estou falando aqui do consumo necessário e consciente, mas estou falando do consumo em excesso.

Parece ser uma lei quase universal: ganhamos, compramos sem pensar e, quanto mais ganhamos, mais inventamos coisas para consumir. Parece natural. Mas, o que deveria ser natural é refletir sobre o que e como estamos consumindo.

Quanto mais compramos, mais precisamos de espaço para guardar, de produtos para limpar, de pessoas para ajudar e mais temos coisas para carregar e guardar. E, por mais que nos desapeguemos, a proporção não é igual: mais compramos do que desapegamos.

RESULTADO: as casas estão cada vez mais cheias de coisas sem utilidade e o orçamento cada vez mais comprometido.

Quando se trata de organizar as finanças, pensamos em escrever os gastos num papel, planilha ou aplicativo. Embora não muito atraente, é necessário para saber onde está indo o dinheiro. Mas não é o suficiente! É preciso saber o que há por trás, ou seja, os gatilhos que levam a gastar o dinheiro.

É difícil assumir que está sem dinheiro, mas, para viver de aparência ou dar conta de todos os desejos, com um armário cheio de roupas (muitas vezes, caras), comida boa e farta, utensílios, carro do ano, brinquedos caríssimos, torna-se aceitável fazer dívidas no cartão de crédito, parcelamentos infindáveis, viver no cheque especial.

Assim como se tornou aceitável viver na bagunça e considerar a organização uma “mania” ou algo desagradável a fazer, tornou-se aceitável viver endividada como se a responsabilidade fosse apenas do governo, do desemprego, dos juros abusivos ou do empregador que paga pouco.

Mas a verdade é que temos acesso fácil a muitos objetos de variados preços e formas de pagamento, o que favorece e facilita a compra por impulso e é a desculpa perfeita para não nos controlarmos.

A verdade é que propagandas gritam na nossa frente como se não pudéssemos viver sem aquele objeto (que nunca tínhamos visto antes) a partir daquele momento. Lamento o que essas propagandas fazem com as crianças… ou com os adultos que são rendidos pelas crianças… não sei o que é pior!

A verdade é que muitas vezes o que nos alegra é o prazer de comprar e não a compra em si. Ou o que justifica comprar uma roupa que achou linda na loja, mas nunca usar?

A verdade é que desperdiçamos comida diariamente. E certamente temos um alimento vencido no fundo do armário da cozinha.

A verdade é que a maioria dos nossos objetos e utensílios não são utilizados embora ocupem um espaço enorme nas nossas vidas. Imagino o que seriam das gavetas sem eles… provavelmente elas não existiriam!

A verdade é que acreditamos que um carro bonito irá traduzir quem realmente somos e ignoramos que é apenas um bem de consumo, que serve apenas para nos levar de um lado para o outro.

A verdade é que compramos por obrigação de uma data comercial e não pela pessoa a qual presenteamos. Se não fosse pelo marketing, o abraço e o elogio teriam o seu devido e genuíno valor…

A verdade é que guardamos coisas com medo de não termos um dia, por falta de fé, de não acreditarmos que iremos ter quando realmente precisarmos.

A verdade é que temos vergonha de nossas casas quando não estão cheias de gesso pelo teto, móveis caros e modernos e paredes cheias de armários projetados, mesmo que estejam cheias de harmonia e paz…

A verdade é que temos vergonha de vestir a mesma roupa com frequência, mesmo que estejam limpas e bonitas…

A verdade é que os pais se sentem culpados em não dar um presente no dia das crianças ou no Natal ou não comprar aqueles ovos de Páscoa com preços inacreditavelmente irracionais. Sem falar dos brinquedos, cujos valores são surreais… parece até que são proporcionais ao choro: quanto mais eu choro, mais fácil eu ganho e mais caro custa!

A verdade é que compramos mais do que ganhamos, vivendo além do que podemos e precisamos.

A verdade é que nos importamos com a aparência e não com o que realmente nos faz bem.

A verdade é compramos além do necessário, comprometendo o nosso espaço, o nosso tempo e o nosso dinheiro. E, no fundo, comprometemos a nós mesmo, aos nossos desejos, à nossa alma.

A verdade é a que a desorganização custa muito mais do que podemos imaginar…


*Texto publicado originalmente no site Bella Mais, em 16.01.2020.

Fabiana G. M. Machado

Sou sócia-fundadora da MoneyMind® e especialista em comportamento financeiro. Trabalho com programas individuais, treinamentos e palestras com foco em comportamento financeiro, ajudando as pessoas a organizar a vida financeira e lidar com o dinheiro com mais liberdade e consciência.

Sou colunista do Bella Mais, um site dedicado ao universo da mulher em diferentes segmentos, e escrevo semanalmente textos relacionados ao comportamento financeiro ao público feminino.

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