O DIA DAS CRIANÇAS E O HÁBITO DE PRESENTEAR: ACEITA DINHEIRO?

Fabiana M. Machado

Dar presentes no Dia das Crianças é uma tradição. Além das crianças, adolescentes e jovens também são lembrados. Eles ficam felizes, o comércio movimentado, a economia aquecida, o dinheiro circulando. Trata-se de um hábito, já incorporado no calendário anual, e o inconsciente coletivo já está “preparado” para comprar.

Para alguns adultos, a data é uma ótima oportunidade. É aquela data em que se coloca a mão no bolso para comprar o presente com a mensagem “não me peça nada até o Natal”. Seguir o costume de presentear em datas comemorativas ajuda a criar uma certa regra na relação com a criança, servindo de limite em seus pedidos, e também na relação com o dinheiro, dando uma folga nas finanças até o próximo presente.

Para a criança também é uma oportunidade. Ela espera o presente. É o momento em que será (simbolicamente) lembrada e poderá ter o seu desejo de consumo atendido, garantindo sua alegria e diversão.

Presentear pode ser uma alegria para o adulto também, ao ver o sorriso expressivo no rosto da criança dizendo que acertou o presente, o que faz surgir imediatamente a emblemática sensação de que “não tem preço”, mesmo tendo custado muito dinheiro.

Já pensou em presentear com dinheiro?

Quando faço essa pergunta, já ouvi muitas vezes: “Nem pensar! Dinheiro não é presente.” Embora o dinheiro seja necessário para comprar, dar dinheiro como presente pode acabar com uma certa magia, como se o presente tivesse um valor muito além dos reais pagos.

Há quem pense, inclusive, que dar dinheiro é uma ofensa, como se não tivesse tido tempo para comprar ou dado à criança a importância de se envolver na compra de um presente, e por aí vai.

Com certeza, a experiência em torno de um presente pode ser única. Mas o dinheiro também tem o seu valor e há alguns motivos que podem ajudar a repensar essa relação com o dinheiro:

  • Dinheiro não ofende, não é vergonhoso e expressa exatamente aquilo que seria comprado com ele;
  • A quantia de dinheiro não está relacionada ao quanto a criança merece ou ao seu valor pessoal e sim ao quanto o adulto quer e pode dar de presente; 
  • Ensina a criança a aceitar o que é oferecido de presente;
  • Ensina a criança a entender que dinheiro é necessário e está por trás das decisões financeiras que vai tomar durante a vida;
  • Permite que a criança tenha liberdade de escolher o que comprar ou se deseja guardar para comprar algo de maior preço ou mais importante no futuro, ajudando a criança a se organizar, planejar e esperar;
  • Se dada a mesma quantia para os irmãos, evita as diferenças com os presentes, ou seja, aquela famosa frase “o presente dele é melhor do que o meu”.

Para quem nunca tem dinheiro e está sempre parcelando as compras dos presentes, é uma boa oportunidade para aprender a juntar e estabelecer o próprio limite de comprar. Se a situação financeira permitir dar 50,00 em dinheiro, por que se endividar para comprar um presente de 200,00? 

Agir de acordo com a realidade financeira vai permitir dar uma verdadeira Educação Financeira à criança e fazê-la entender que, embora seja legal ganhar presente, esta é uma data comercial, que acontece todos os anos, e nada tem a ver com o amor, carinho e atenção que dão a ela.

A idade da criança pode variar e cabe a cada família avaliar. O importante é tratar o dinheiro como assunto do cotidiano, quebrar o tabu, buscar afastar as próprias lembranças negativas em torno do dinheiro e lidar com naturalidade e leveza. Nunca é cedo e nem tarde para entender essa relação e falar de dinheiro.

E nada substitui a sensação de receber, ver, tocar, sentir uma nota de dinheiro. Mas hoje, em tempos de pandemia, a nota pode ser substituída por outras formas de dinheiro, como um cartão pré-pago, explicando como funciona e a quantia que representa.

O objetivo não é acabar com os presentes, mas despertar para essas reflexões. E talvez aceitar dar dinheiro ainda não faça sentido, mas aceita repensar?

Fabiana M. Machado

Sócia-fundadora da MoneyMind® e especialista em comportamento financeiro. Colunista do Bella Mais, um site dedicado ao universo da mulher em diferentes segmentos, e escrevo semanalmente textos relacionados ao comportamento financeiro ao público feminino.

Quer saber mais? Acompanhe a coluna semanal. Todas as quintas tem texto novo para você refletir sobre a sua relação com dinheiro.

Quer melhorar a sua relação com o dinheiro e trazer leveza para a sua vida?

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*Este texto foi publicado no site Bella Mais, em 08/outubro/2020.