CARTÃO DE CRÉDITO: UM EXTRATO DA ALMA

Fabiana M. Machado

O uso do cartão de crédito se tornou um grande aliado para facilitar os pagamentos on-line e evitar o contato com o dinheiro de papel na pandemia. Assim, o dinheiro continuou circulando, só que de uma forma digital. 

O cartão de crédito não é novidade. O mundo digital também não. Mas os dois juntos se destacaram nessa “era” de quarentena. E o nosso comportamento também mudou.

Passamos a viver a experiência das compras on-line. Agora, as lojas estão todas juntas em um só lugar, na palma das mãos. A vitrine brilha na tela digital. E o carrinho de compras está logo ali. Nada de filas ou espera. Só um clique e é só esperar para receber em casa!

E, de repente, vem a fatura. Você paga sem olhar e conferir o extrato, prefere o débito automático na sua conta ou, se não tiver dinheiro, deixa os gastos virarem dívida com cobrança de juros que nunca entende como calcular. Há uma indignação eterna sobre as abusivas taxas de juros do cartão, a certeza de que não vai diminuir e alguém tentando explicar como calcular, mas, ao final, terá que pagar o dobro ou o triplo do valor da compra. Como é dolorido, é preferível nem olhar, o que faz a resposta ser quase sempre a mesma: Quanto você paga de juros? Não sei… 

Mas o que você comprou? Se parcelou, faz muito tempo e é bem capaz de nem se lembrar da compra. Que importa? Compra já está feita e passado é passado. E o cartão de crédito passa a ser uma “despesa”: você come cartão, você anda de cartão, você veste cartão, você ouve cartão, você assiste cartão…não tem a menor diferença. A questão passa a ser: quanto tenho que pagar? Muitas vezes, essa conta não fecha com o dinheiro que tem disponível.

Talvez não faça sentido para você calcular na ponta do lápis com o que você está gastando o dinheiro. Mas o extrato do cartão diz muito sobre nós. Nossos gostos, preferências, forma de consumo, quantidade e tipo do que compramos, de quem compramos e até os dias em que fazemos as compras. Tudo fica registrado ali. No fim de semana, nos momentos de solidão, de distração, de buscar aceitação… até que ponto estamos conscientes dos nossos gastos?

Entrar numa livraria on-line e comprar um monte de livros pensando em se tornar um bom e culto leitor! Só que, na verdade, você comprou muitos livros movido pelo “desejo de ser” um leitor (e não irá realmente ler todos os livros) ou para aproveitar o frete grátis, que faz gastar mais, mas traz a sensação de estar levando vantagem. Observe que o frete pode estar decidindo por você como gastar o seu dinheiro…

O extrato revela até a nossa forma de agir: muitas das compras não são suas porque você emprestou o cartão? É muito bom ser generoso e ajudar quem precisa, desde que você não seja prejudicado. Quem deve está dando o dinheiro em dia? Você consegue cobrar quando chega a fatura? E se não receber, tem dinheiro para pagar por sua conta e risco? Faças as contas, pois a dívida ficará no seu nome.

Consciência no uso do cartão de crédito

Cada vez que usamos o cartão, estamos escolhendo como usar o dinheiro. Ele parece ser invisível, mas está ali na sua relação com o cartão de crédito. Então, antes de “passar” ou “digitar” o cartão, confirme se os gastos estão alinhados com os seus valores e objetivos.

Se você quer poupar dinheiro para as férias de fim de ano, quitar uma dívida, investir em algum curso, pagar o plano de saúde, não faz sentido usar o cartão para passear pela internet.

As emoções também devem ser levadas em conta. Quando bate o cansaço após um dia cansativo de trabalho, você pode querer se compensar pedindo uma comida naquele aplicativo que está no seu celular. Já fez as contas de quanto está gastando com essa compensação? 

E quando está triste, a chance de você acessar a internet para se distrair e acabar comprando o que não precisa é muito grande.

Não se deixe levar pelo impulso de comprar o que não pode pagar. Os juros irão fazer você se lembrar disso e se sentir ainda mais culpado. 

A forma de consumir pode ter mudado. Mas o que consumimos não depende da forma, e sim do valor que damos às coisas. E os seus gastos estão de acordo com os seus valores? Olhe para o extrato e descubra.

*Este texto foi publicado no site Bella Mais, em 03/setembro/2020.

Fabiana M. Machado

Sócia-fundadora da MoneyMind® e especialista em comportamento financeiro. Colunista do Bella Mais, um site dedicado ao universo da mulher em diferentes segmentos, e escrevo semanalmente textos relacionados ao comportamento financeiro ao público feminino.

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