ASSIM QUE DER, EU PAGO COMPRO.

Fabiana M. Machado

A relação que temos com o dinheiro é marcada não apenas pelas experiências e ensinamentos que tivemos no passado e formam a nossa história, mas também pela forma como o dinheiro foi sendo usado ao longo dos tempos.

Desde criança, ouço minha mãe dizendo, com um certo orgulho, que meu avô (que faleceu em um acidente de carro) não deixou nenhuma dívida ou conta pra pagar. Isso era nos anos 70, numa cidade do interior, época em que os pagamentos eram à vista ou em carnês das lojas. Mas, naquela época, era famosa a caderneta dos ambulantes, mercearia, clube, onde era permitido comprar tudo fiado e anotar a dívida na caderneta para pagar um dia no futuro. O dinheiro não aparecia na hora da venda, mas apenas a promessa de que um dia ele viria.

Parece-me que meu avô não gostava de fazer dívidas para pagar. Sempre procurou juntar o dinheiro para, então, comprar o que desejava. E todos sabiam da sua indignação com as contas e prestações. Nada de dever. Com isso, poupou o incômodo à família de que credores pudessem cobrar a conta em um momento de luto tão repentino e doloroso. 

O compromisso

A caderneta, durante longos anos da história, sempre foi uma grande aliada nas transações do comércio, tanto para o vendedor garantir a venda quanto para facilitar a vida do comprador que não tinha dinheiro no momento.

Um hábito que fazia parte da vida de muitas pessoas durante anos e você pode estar pensando: ainda faz. Baseado na confiança, é muito comum nas cidades do interior, onde todos se conhecem ou sabem onde moram. Mas também nas cidades “grandes”, a caderneta está presente em pequenos grupos do bairro, amigos ou clientes antigos, que se conhecem e geram a confiança suficiente para estabelecer uma relação de compra e venda sem dinheiro. 

O dinheiro não aparece, senão no momento do pagamento, às vezes feito com dia marcado, como “Te pago no final do mês” ou “Acerto quando receber o meu salário”, às vezes com dia indefinido, confirmado por aquela frase que causa um certo calafrio no vendedor: “Assim que der, eu pago”.

Nessa hora, percebemos que a relação não é baseada apenas na confiança, mas na capacidade de honrar o compromisso assumido. Quem ainda vê oportunidade para vender fiado sabe os riscos de não receber no dia ou ser o último credor da lista do seu cliente, principalmente se esse for um parente, amigo ou cliente antigo. Pode por fim à relação.

Já para quem tem o hábito de comprar fiado traz consigo a sensação de prazer da compra e liberdade para decidir quando pagar, mas pode perder a real noção de limite daquilo que pode gastar e o que o dinheiro será, no futuro, capaz de pagar. 

Olhar para o dinheiro

As formas de pagamento vêm se modernizando e trazendo mais agilidade e garantia na hora da venda. Mas essa facilidade de comprar sem ter dinheiro no momento vem sendo mantida ao longo de anos, dificultando, muitas vezes, olhar para o dinheiro e decidir com mais atenção com o que e onde quer gastá-lo.

O que você anota na caderneta, o que você passa no cartão de débito ou crédito, pode ser um  comportamento que te mantém afastada do dinheiro por toda uma vida, dificultando a gestão, favorecendo gastos desnecessários e dívidas intermináveis e a vida se torna um constante “pago quando puder”, mesmo sabendo que não pode. 

E eu às vezes penso como meu avô agiria se vivesse nos dias de hoje com um cartão de crédito. Com o comportamento de não dever dinheiro, juntar, olhar pra ele, saber quanto tem para, somente depois, comprar, acho que ele diria: Assim que der, eu compro. 

Fabiana M. Machado

Sócia-fundadora da MoneyMind® e especialista em comportamento financeiro. Colunista do Bella Mais, escrevo textos relacionados ao comportamento financeiro e a relação com o dinheiro.

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